Reportar é viver

08/08/2016

A velha (e a nova) infância

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Se você também foi uma criança que cresceu sob o encanto de obras como “ET – O Extraterrestre”, vai me entender. E se também devorou os episódios de Stranger Things na sua rotina moderna e tecnológica, te convido à melancolia da comparação de gerações que não têm comparação. Sim, são os “novos tempos”, ganhamos e perdemos. Mas, como conservar mais daquilo que era tão bom e escorre pelos dedos? As brincadeiras de crianças são outras, infelizmente mais dependentes de coisas do que de outras pessoas – esse é o fator mais triste. Os desafios se impõem primeiro a nós, “adultos”, antes de indicarmos os caminhos às crianças. Que a verdadeira essência não se perca. Nem em nós, nem nelas.
Artigo de hoje da coluna Releitura, da Gazeta de Limeira, que fica off por um tempo, durante as férias de quem vos escreve

COLUNA RELEITURA – 08/08/2016

A velha (e a nova) infância

Daíza Lacerda

Na semana que passou, a infância atual e a da “nossa época” foram motivo de considerações aqui na redação. O ponto de partida da discussão foi a série Stranger Things, da Netflix. Ela arremessa nós, “trintões”, de volta aos saborosos anos 80 da infância, com filmes de amizades e acontecimentos extraordinários. Inevitável pensar como as produções de hoje valorizam mais os efeitos de computação gráfica do que as boas histórias, tendo no tal CGI uma muleta para arrebatar multidões aos cinemas, exagerando na dose visual e relaxando na emocional.
Apesar de também ter efeitos, a curta primeira temporada de Stranger Things resgatou o senso de companheirismo, a amizade que nasce e se fortalece genuinamente – apesar dos monstros. Os quatro amigos que transitam pela cidadezinha de bicicleta, que têm uma cabana na floresta, parecem remeter a outro mundo, distante algumas décadas que parecem milênios.
Porque parece que faz tempo que vivemos no reino das telas de alta resolução, e não das bicicletas e das reuniões no porão ou quintal, cara a cara, com a imaginação ditando os jogos, como os de tabuleiro, que exigem interação física. Vivemos na era em que o movimento só acontece quando assim dita o mundo virtual, como o Pokémon Go ou Kinect, sensor de videogame que faz o jogador dançar ou praticar algum esporte. Dentro da sala.
A nossa geração, que viveu tempos de jogar queimada ou taco na rua sem se preocupar com o tráfego intenso ou ladrões e sequestradores, cercará seus filhos de todos os cuidados que a tecnologia e segurança poderão proporcionar, na melhor das intenções. Conseguir resgatar o mínimo de liberdade que vivemos lá nos anos 80 demandará não só muita criatividade, mas escolhas que vão interferir diretamente no meio de vida, inclusive profissional.
As crianças saberão inglês antes da adolescência, ensinarão informática aos pais, vão zerar os níveis dos jogos, passar de primeira no vestibular. Mas talvez não saibam o que é ralar o joelho aprendendo a pedalar ou tropeçando no pega-pega, que não dominarão a imensidão de um bairro com a sua turma, mas espaços delimitados, por tempos delimitados, eventualmente. Talvez não consigam ter mais atenção nas pessoas do que nas telas.
Reconheço que sempre fui chegada nos aparatos eletrônicos, mas é muito chato tentar travar uma conversa com quem está mais interessado nas telas do que na gente. E isso tem virado regra entre crianças, sob “exemplo” dos adultos. O início da matéria publicada na sexta, na Gazeta, da repercussão do Pokémon Go em Limeira, reflete exatamente o que aconteceu na busca de depoimentos no parque: entrevistas entrecortadas pelo jogo, ainda que ele fosse o assunto.
De minha parte, fico feliz com a lembrança de, num aniversário, descer ao Centro de ônibus com a minha mãe, escolher meus patins no Palácio dos Brinquedos (que parecia mesmo um palácio!) e passar uma das tardes mais ansiosas da minha infância até que a aula da 2ª série acabasse, para curtir meu brinquedo novo, na rua, com a criançada. Talvez os caçadores do Pokémon jamais saibam o que é isso.

01/08/2016

O eleitor é que precisa evoluir

Filed under: Uncategorized — daizalacerda @ 8:30
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É sempre mais fácil reclamar dos candidatos do que procurar fiscalizá-los a contento, não é? A urgência de fazermos nossa parte como eleitores (cidadãos!) é assunto do meu artigo. Convido a refletir, de forma séria, sobre a nossa postura como quem elege, e não “lavar as mãos” diante de todas as consequências que colhemos a partir do nosso voto. Por mais clichê que seja, a mudança está, sim, em nossas mãos, e essa responsabilidade não termina na urna, mas começa. Não basta eleger, tem de acompanhar, cobrar, contribuir, participar. Isso depende de uma longa mudança cultural, é verdade. Mas não existe maratona sem o primeiro passo!

 

COLUNA RELEITURA – 01/08/2016

O eleitor é que precisa evoluir

Daíza Lacerda

Pode não ser nos próximos quatro anos. Nem mesmo neste milênio. Mas a postura do eleitor precisa mudar tanto quanto a batida fórmula dos candidatos. Cobramos sangue e ideias novos, mas nós mesmos não evoluímos o nosso “relacionamento” com políticos e com a política. O esquecimento em quem votou em eleições passadas é uma das evidências mais graves.
É fato que nunca tantas pessoas serão cumprimentadas em inícios e meios de mandato como serão nos próximos meses. Já se ouve por aí que “vai começar” aquilo tudo que a gente já conhece na rotina pré-eleições, seguida de um revirar de olhos. Boa parte não consegue esconder o desânimo, já esperando mais do mesmo: discursos, promessas, quintais e ruas imundos com santinhos e a encheção de saco dos carros de som.
Sei que a descrença nas instituições é considerável, e não sem motivo. Só não dá para ignorar que as instituições são reflexos das nossas escolhas e, principalmente, dos nossos desleixos. Milhares elegem um vereador ou deputado, mas quantos acompanham sua conduta durante o mandato? Verbalizar em rede social é fácil, mas quem vai no gabinete para cobrar posição e atuação condizentes? Daí, chega esta época, emerge o circo do desespero como o retratado na última sexta nesta Gazeta, em matéria da jornalista Érica Samara, sobre a quantidade de proposituras arquivadas por serem ilegais. Parte das dezenas de pessoas que são pagas com o nosso dinheiro para legislar e fiscalizar, sequer sabe uma coisa ou pratica outra. Isso só para ficar no âmbito municipal.
Quero acreditar que nossos critérios como eleitores é que serão responsáveis por elevar o nível principalmente de comprometimento de candidatos, ainda que eu não esteja viva para usufruir disso. Afinal, dependerá de uma profunda mudança de cultura que, felizmente, começou, ainda que tímida perto da revolução que necessitamos. Antes tarde do que mais tarde.
Já passou da hora, por exemplo, de acabar com os votos de protesto, elegendo figuras cujos perfis são evidentemente inaptos para qualquer cargo eletivo. Já passou da hora de torcer o nariz para horário político, e tentar avaliar as propostas – para avaliá-las e cobrá-las no futuro, se for o caso. No mínimo, vai garantir risadas, o que é quase inevitável na campanha televisiva.
Estamos mais céticos, mas muitos ainda se rendem à ingenuidade perante a imagem. Passou da hora de se deixar levar pela trilha sonora envolvente, pelo sorriso falso nas fotos, pelos terninhos e camisas, pelo excesso de base facial ou de Photoshop mesmo e ir direto ao que interessa. Não basta saber quais são as propostas, mas a viabilidade, como serão executadas, se são possíveis ou palavras ao vento. Estamos condicionados às promessas vagas. E na hora do vamos ver, a velha justificativa da falta de verba, de entraves jurídicos.
Nós também temos de ser realistas o suficiente para saber o que é e o que não é possível dentro das fórmulas que nos serão vendidas. Não dá para tolerar ingerência e má vontade, mas também não dá para esperar milagres. Para isso, é preciso se envolver, se interessar o mínimo para entender as engrenagens que fazem uma cidade evoluir ou não. Nada menos do que exercer a cidadania.

21/07/2016

Limeira vive dia olímpico com passagem da tocha

Filed under: Uncategorized — daizalacerda @ 23:42
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Chama olímpica passa em Limeira sem incidentes

Revezamento atraiu populares às ruas e também despertou protestos

Daíza Lacerda

Dois extremos marcaram o dia de ontem para os condutores da chama olímpica em Limeira. A calmaria da concentração nos ginásios do Sesi e Vô Lucato no final da manhã deram lugar à euforia das ruas, em revezamento que teve a participação de quem passava pelo trajeto ou se programou para assistir a condução da tocha olímpica.
A nadadora paralímpica Beatriz Zuzi, de 19 anos, não garantiu colocação para participar dos Jogos, mas teve, na condução da chama, a sua realização. “É um meio de sentir quase a mesma emoção. Não conseguia acreditar quando meu nome foi confirmado, mas fiquei muito feliz. É um momento único para mim, para a cidade e o país, pois não sabemos quando isso se repetirá”.
A funcionária pública Priscila Pereira, de 36 anos, estava preocupada em não tropeçar e cair no trajeto. “É uma festa bonita, apesar dos protestos, pois nem todos entendem o espirito olímpico, que independe de questões políticas. É um simbolismo forte”.
Baiana radicada em São Paulo, Zingara Atta, de 37 anos, foi um entre três funcionários selecionados de uma empresa que fornece tecnologia para as Olimpíadas, cada um alocado num local para o revezamento. Para ela, que já tinha referências de Limeira pelo setor de joias, a condução simboliza uma virada de ciclo. “Há cinco anos eu não teria condições físicas de fazer isso. Estava obesa, perdi 44 quilos e o esporte passou a fazer parte do meu novo estilo de vida”, conta.
Aos 23 anos, Lucas Chung Man Leung foi um dos condutores mais animados, pedindo participação dos populares e entoando gritos de de guerra. O estudante da Unicamp em Limeira foi selecionado por se destacar num intercâmbio e vencer um concurso da embaixada britânica, além de fomentar projetos sociais entre estudantes e comunidades de Limeira, como o bairro Geada. Para ele, as Olimpiadas são motivo de esperança no contexto brasileiro atual, principalmente por meio da educação. “É o ponto de partida para projetos que podem atingir qualquer um, beneficiar comunidades, trazer alegria. O meu lema é acordar todo dia e fazer alguém feliz”.
Indicada pelo COB, a atleta Maíla Machado falou da alegria em conduzir a chama no lugar que nasceu, mas chama atenção para a necessidade de mais apoio aos atletas. “É uma oportunidade para que patrocinadores abram os olhos, pois há muito jovem sem chances para deslanchar. A cidade também deixa muito a desejar em incentivo, e deve apoiar mais para que seus atletas não precisem sair daqui”.
Estimativa inicial é de
30 mil participantes

Nas ruas, o revezamento foi festejado por adultos e muitas crianças, ainda que o evento sofresse alguns protestos, como um rapaz que acompanhou o comboio com cartazes questionando prioridades no País em relação à tocha. Nas vias liberadas, motoristas observavam e alguns apoiavam com buzinas.
Nenhum incidente foi registrado no trajeto, como informou Gino Torrezan, secretário de Desenvolvimento. “Parabenizamos a população que recebeu muito bem o evento, respeitando o comboio. Os condutores foram muito aplaudidos e muitos saíram de suas casas ou trabalho para ver esse símbolo que talvez não passará mais em Limeira”.
Pela distância do trajeto, de cerca de 6 km, a estimativa inicial é de 30 mil pessoas no percurso, conforme o secretário. No entanto, a extensão do público deve ser aferida pelos critérios da Polícia Militar e Guarda Civil Municipal, em avaliação do evento que deve ocorrer ainda nesta semana.
Torrezan lembra que foi um ano de planejamento conjunto com o Comitê Olímpico Brasileiro, que proveu experiência de um evento feito com vários órgãos das esferas federal, estadual e municipal. O município também deve receber uma avaliação do Comitê, quando o revezamento for finalizado. (Daíza Lacerda)

Emocionados, condutores
pedem incentivo ao esporte

Além de atletas olímpicos, revezamento reuniu pessoas de diferentes cidades e históricos

Daíza Lacerda

Um comboio de diversos veículos antecedeu a chegada dos condutores da chama olímpica, que tinham o ponto de revezamento previamente marcado. A condução da tocha começou sem atraso, pouco depois das 13h, com a suspensão do tráfego poucos minutos antes do início, na avenida Major José Levy Sobrinho.
Ovacionado, o atleta paralímpico Odair dos Santos assumiu a condução ainda na Boa Vista, assim como a atleta Maíla Machado. A concentração de espectadores foi maior no Centro, mas em diversos pontos trabalhadores de empresas e comércios também pararam para acompanhar a passagem.
O condutor mais festejado foi José Carlos da Silva, o Fumaça, rodeado por atletas e fãs enquanto esperava a sua vez de guiar a chama olímpica, o que fez emocionado. Ele fez a passagem para o nadador Guilherme Guido, que encerrou o revezamento em palco montado no Parque Cidade. Depois, ele descreveu o momento. “Foi muito bom trazer esse símbolo para Limeira, sentir o calor dos limeirenses e fechar o revezamento. Vi muitas crianças e esse é um meio de incentivar as novas gerações, já que o esporte e educação andam juntos”, disse ele, que só soube na manhã de ontem que encerraria o evento. Ele também destaca a importância de olhar para jovens promissores. “Tive a oportunidade de viajar o mundo e no Brasil as coisas acontecem fora de ordem, buscam o atleta pronto. Mas é preciso investir nas bases”, defende.
Nascida em Limeira, a atleta do handebol Alexandra Nascimento, de 34 anos, também descreveu a emoção de carregar o símbolo olímpico. “Quando comecei a ver todos torcendo, meu coração saiu pela boca. É uma experiência inexplicável. Estou indo para a quarta olimpíada e não esperava essa sensação”, declarou. Ela também recorre ao símbolo da esperança diante das condições do Brasil. “São tempos difíceis na política e na economia, mas a passagem é a busca de um novo espírito. O Brasil precisa de muitas coisas, mas também precisa do espírito olímpico. É preciso pensar em quantos jovens saíram da rua graças ao esporte. É um incentivo para o País, uma maneira de crianças e famílias sentirem um pouquinho do que os atletas sentem na hora do jogo”.

18/07/2016

O valor da memória

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COLUNA RELEITURA – 18/07/2016

O valor da memória

Daíza Lacerda

Não sei você, mas eu paro para flores, animais e histórias. Numa época tão fugaz como a nossa, vejo até como um alívio a possibilidade de se transportar para outros tempos, principalmente os que não vivi. Quando encontram um velhinho bom de papo, a pauta inevitavelmente é direcionada a mim, com os editores já esperando algum “livro” como fruto de conversas com o privilégio de não serem apressadas.
Mas, a cada dia que passa, é mais difícil se aprofundar, ou encontrar alguém lúcido o bastante e disposto a contar. Assim, temos um acervo infinito escondido em mentes, com a triste possibilidade de que não saiam dali.
Por isso, foi emocionante descobrir o testemunho do limeirense Orlando Forster como ex-combatente da Revolução de 32, cujas passagens reproduzi em matéria dedicada ao fato histórico em 9 de julho. Lembro de ter entrevistado o seu Ulisses, último sobrevivente, com a idade já bem avançada, e alguns lampejos da participação no embate. Imagino o que poderia ter ouvido se tivesse a oportunidade de ter chegado antes.
Faço tal colocação porque vejo que muitas pessoas, tomadas pela sua rotina, acabam não aproveitando o baú de sabedoria que têm acesso: seus pais, tios, avós, bisavós. Não importa a instrução, mas sim o que viveram e podem contar. Mas estamos sempre tão ocupados para ouvir…
Na semana em que minha avó paterna fez a sua passagem para outro plano, foi inevitável creditar a ela o meu apego às histórias. Primeiro nossas, depois a dos outros. Inevitável a reflexão sobre o que pude absorver de sua vivência, de tempos agora perdidos pelo elo mais antigo que eu tinha com o passado, e que se foi.
Infelizmente, as consequências da negligência com a memória talvez sejam percebidas tarde demais. É algo que já nos damos conta hoje, mas não sabemos qual será o impacto no futuro. Não sabemos mensurar o tamanho da história oculta em objetos ou recordações, talvez por não termos essa cultura, como em outros países. Aqui, as pessoas tendem a se livrar das velharias.
Nosso patrimônio histórico é (mau) exemplo. Infelizmente, parte é herdada por pessoas que não têm interesse em preservá-la. E quem tem, não tem meios, na maioria das vezes. Assim, fragmentos da nossa história viram entulho. É uma transformação tão dinâmica, que a Limeira que minha avó viveu está na memória. O que a Limeira que eu vivo representará aos meus descendentes daqui algumas décadas? Nós registramos essa história todos os dias, mas não temos ideia do tom que este livro do cotidiano vai ter, lá na frente.
Até hoje ganho broncas pelo espaço consumido com o meu apego a papéis, arquivos. Ainda tenho a esperança de que, o que hoje não passa de “lixo”, um dia seja o tesouro de alguém que não testemunha esses tempos. Assim como, eventualmente, tenho a oportunidade de acessar tesouros de quem teve o cuidado de preservar qualquer indício do passado.
A sensação é sempre de que o tempo passa cada vez mais rápido. Mas, na ânsia de avançar, não sabemos o quanto perdemos em não olhar para trás.

17/07/2016

Símbolo máximo das Olimpíadas nas mãos de limeirenses

Filed under: Uncategorized — daizalacerda @ 23:44
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Chama olímpica chega a Limeira na próxima quarta-feira e será conduzida em trajeto de 6 km

Daíza Lacerda

No fim da tarde quente no inverno, ele até tenta se esconder no grande chapéu de palha. Se protege do sol, mas os raios ainda o alcançam e ressaltam as marcas do tempo. Mais do que nas pernas ágeis, no rosto de Fumaça está registrado o acúmulo dos anos dedicados ao esporte. Seja ensinando, seja cuidando da pista de atletismo, como fazia na última semana.
O garoto que há meio século trocou o futebol pela corrida se prepara, aos 74 anos, para o feito que não imaginara registrar em sua carreira: carregar a tocha olímpica. “É um acontecimento mundial. Não esperava chegar numa posição dessa. É como se eu tivesse sido chamado para a seleção brasileira”, tenta explicar.
Enquanto faz manutenções na pista da qual é coordenador, Fumaça, como é conhecido José Carlos da Silva, olha para trás e pesa o seu legado. “Batalhei, cuidei, e deixo o que sei para os alunos. Tudo que aprendi tenho que passar para alguém. Gosto de ensinar, é um dom que Deus me deu”, conta ele, que está há mais de 40 anos dando aulas e agora escolhe as provas para disputas de corrida entre idosos.
Outra referência de Limeira nas pistas está no auge, mas também se prepara para a emoção inédita de participar do principal símbolo dos Jogos Olímpicos, além das disputas das Paralimpíadas do Rio. Odair Ferreira dos Santos perdeu a visão, mas, correndo, conquistou inúmeros pódios mundo afora. Aos 35 anos, sua jornada olímpica no próprio País começará pela condução da tocha, e continuará nos Jogos Paralímpicos, nos quais vai correr os 5.000 metros e 1.500 metros. “Será uma emoção diferente de todas que já vivenciei até hoje. Corri em várias pistas pelo mundo, e a gente acaba se acostumando. É uma oportunidade que todo atleta sonha, é o símbolo do maior evento esportivo. São só 200 metros, para viver com intensidade”.
Ele salienta que competir no quintal de casa é uma motivação a mais, e vê a passagem da tocha como uma oportunidade única para as cidades. “É um símbolo acompanhado no mundo todo, e que deve trazer alegria para a população brasileira, que passa por momentos difíceis. Acredito que o Brasil vai sair dessa, mas os Jogos não têm nada a ver com o momento político que vivemos. Pelo contrário, vai deixar um legado”, considera.
SONHOS DE INFÂNCIA
As ruas de Limeira serão caminho para a busca do sonho olímpico nas águas. O nadador Guilherme Guido conduzirá a tocha como responsável pelo 8º melhor tempo do mundo nos 100 metros costas, em competição na qual brigará pela final, no Rio. Para ele, a honra de conduzir a tocha remete às primeiras braçadas, ainda na infância.
“Desde criança, quando comecei na natação, sonhava em participar das Olimpíadas. O sonho se concretizou em 2008, quando me classifiquei para os Jogos de Pequim, mas não tive a oportunidade nem de chegar perto de um símbolo olímpico como esse. Hoje tenho essa oportunidade, que ficará para a minha história, e vou guardá-la com muito carinho. Tanto a lembrança quanto a tocha física, para a qual já separei no meu quarto de medalhas o seu lugar! Carregar a tocha pra mim será mais do que um sonho, significa poder incentivar as crianças de Limeira à prática do esporte, o que tento desde o lançamento do meu campeonato Guilherme Guido no ano passado. Acredito que mais importante do que escrever uma história é deixar o meu legado. Estou realmente muito feliz em poder devolver à cidade de Limeira tudo que me foi fornecido”, diz o atleta.
A tocha também será guiada por quem não chegou às disputas profissionais, mas nutriu esse sonho. Aos 35 anos, o assistente administrativo Eduardo Ferreira dos Santos deve iniciar o revezamento, numa chance desejada há pelo menos duas décadas. Ele, que se inscreveu em todos os canais possíveis para participar da condução, teve a história selecionada por um dos patrocinadores. “Em 1996, o Rio era candidato para as Olimpíadas de 2004. Naquele ano, praticava judô, e acompanhei os Jogos pela TV. A modalidade não deu muito certo e parti para o atletismo, tendo em vista chegar às Olimpíadas dali 8 anos. No fim, nem o Rio levou e nem eu, mas continuei praticando corrida. O mais perto que cheguei das Olimpíadas foi com os ingressos para os Jogos, mas queria essa chance de estar mais próximo, em sonho que não atingi como atleta”, descreve.
Para ele, o esporte é mágico. “Costumo dizer que infeliz daquele que não sabe o que o esporte proporciona. Pois as várias modalidades são diferentes, mas iguais ao mesmo tempo. Todas elas têm um momento ímpar, o valor de cada segundo, a sensação sublime. Mesmo para um atleta amador a condução da tocha será um momento único, inigualável”, define.

 

0191 - preparação da tocha. JB ANTHERO. 13-7-2016. IMG_2114 (Copy)

Fumaça: “É como se eu tivesse sido chamado para a seleção brasileira” (Foto: JB Anthero)

0192 - preparação da tocha. JB ANTHERO. 13-7-2016. IMG_2108 (Copy)

Odair: “Será uma emoção diferente de todas que já vivenciei até hoje” (Foto: JB Anthero)

11/07/2016

Quando o absurdo é a regra

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COLUNA RELEITURA – 11/07/2016

Quando o absurdo é a regra

Daíza Lacerda

Sim, vai ter Olimpíada! Sou super a favor da realização dos Jogos no Brasil e faço campanha para que as pessoas se desprendam dos ranços políticos e aproveitem a oportunidade de ter por perto um evento histórico.
Mas… por mais chances que a gente dê, alguns agentes públicos conseguem contrariar leis como a da lógica. Temo quando irão dominar até a da gravidade, diante de feitos que julgaríamos impossíveis, mas eles realizam.
O choque é devido à foto do poste na ciclovia do Parque Olímpico no Rio de Janeiro, literalmente um retrato do descaso à mobilidade e ao esporte, na cidade que se ostenta como “academia natural”. Como se não bastasse a queda de um trecho de ciclovia, inclusive com vítima fatal.
Parece cômico, mas é trágico. Assim fica difícil acreditar que há seriedade no trato da coisa pública, até mesmo defender um evento tão tradicional com ameaças de ser manchado pela também tradicional falta de gestão eficiente dos recursos. O pedido de socorro ao governo federal evidencia a vergonhosa falta de planejamento da cidade e Estado do Rio. Mas estamos num país que é mais difícil assumir as limitações do que reconhecer quando não dá. Como já ouvi muito, “não guenta, não tenta”. Mas, também, como se diz, brasileiro não desiste nunca.
Só que a vocação de remar contra a maré se espalha de forma espantosa, como em exemplo de outra esfera. Só a intenção de aceitar um simpatizante da ditadura militar para chefiar a Funai já seria uma ofensa. Mas a cereja do bolo é a indicação partir de um partido “cristão”, dentro de uma barganha de cargos previamente acertada. Partido este que não considera tal posicionamento um constrangimento, aludindo à “democracia” de cada um defender o que quer. Resumo da ópera em reportagem da Folha: http://bit.ly/29lHt9W. Não sei se estou equivocada ou o partido, nem se estamos tratando do mesmo fato, aquela mancha na história brasileira que até hoje oculta corpos, razões e sabe-se lá mais o quê, em nome de qualquer coisa, menos da democracia. A nomeação foi barrada graças à intervenção do Ministério da Justiça, mas só depois depois de muita repercussão.
É triste ainda precisar garantir justiça “no grito”, e ter de demandar mais energia em coisas que deveriam nos tranquilizar (ter uma ciclovia) e não nos preocupar (como um poste no meio dela).
Drummond, que jaz em bronze lá em Copacabana (também vítima com os inúmeros furtos dos seus óculos), sabia de nada, inocente. Pedra é para os fracos. No meio do caminho tinha um poste. Na paciência tão fatigada do brasileiro, vai à prova qual dos acontecimentos nunca serão esquecidos: os Jogos ou as falhas.

10/07/2016

Por dentro do Residencial Rubi

Filed under: Uncategorized — daizalacerda @ 23:58
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Bairro que receberá 900 famílias de baixa renda começa a receber infraestrutura

Daíza Lacerda

Mal cabem numa mão as chaves de apenas um dos blocos do Residencial Rubi, no qual vão morar famílias de baixa renda que participaram de extenso processo na busca por uma entre as 900 moradias próprias pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV). No terreno com quase 222 mil m² estão divididos três condomínios (A, B e C), com acessos distintos e 15 prédios cada. Cada bloco tem o térreo e quatro andares, totalizando 20 apartamentos cada.
O complexo se divide entre concreto e pó, na mobilização de cerca de 200 trabalhadores atualmente. Todos os apartamentos estão praticamente concluídos, mas o novo bairro ainda recebe estruturas como a de energia elétrica, com postes que começaram a ser colocados há poucos dias. O asfalto ainda não chegou, o que mantém tortuosas as rotas de maquinários entre os blocos, na colocação das caixas que receberão os hidrômetros, além das estruturas de para-raios. As guias começaram a ser colocadas nas futuras ruas internas e serão feitas também ruas externas, com acesso a partir da avenida principal, em ligação entre os condomínios e equipamentos públicos. Cada um dos três terá sua própria portaria, salão de festas, quadra e playground.
Além da identificação com letras e números dos blocos e apartamentos, os prédios receberão um kit para portadores de necessidades especiais, considerando-se os futuros moradores nessas condições que já tiveram a unidade sorteada.
Cada unidade tem 47 m² com dois quartos, sala, banheiro e cozinha com área de serviço. Os blocos têm estrutura que permitem a colocação de elevadores, o que dependerá de providência dos moradores.
O Rubi tem previsto, ainda, 33 lotes comerciais que serão vendidos pela construtora, parte em área do outro condomínio do complexo, o Varandas do Jardim do Lago, voltado à faixa 2 do Minha Casa, Minha Vida, e que terá mais de 700 apartamentos em 11 torres,
Uma extensa área verde, que inclui uma área de preservação permanente, está entre os condomínios, além de outra área ao fundo do terreno, próxima de onde será construída uma estação elevatória. Além da estação, o projeto envolve a recuperação ambiental com 4 mil árvores.
O PROJETO
A área, com acesso pela avenida Lauro Correa da Silva, próxima dos bairros São Lourenço e Nobreville, estava destinada a outro tipo de empreendimento, como explica o secretário de Habitação, Felipe Penedo. Eram previstas de 300 a 400 casas na faixa dos R$ 300 mil, até que os negociadores aceitaram a sugestão do município de implantar um projeto de interesse social.
A estimativa inicial era de 1,5 mil unidades, mas o financiamento não cobriria o total. Delimitou-se as 900 unidades, que recebem R$ 75 milhões do governo federal e outros R$ 18 milhões do Casa Paulista, do governo estadual. Os beneficiários pagarão mensalidade de R$ 25 a R$ 80 durante 120 meses. As obras são executadas pela construtora FYP, que comercializa as unidades da Faixa 2, para famílias com renda superior a R$ 1,6 mil, com financiamento e possibilidade de subsídios pela Caixa.
Se o pó predomina no período mais seco, a chuva também atrapalhou os acessos e trabalhos, atrasando a obra em cerca de dois meses. Mas o projeto também teve atrasos de repasses da Caixa, também estimados em 60 dias, e que estão sendo normalizados, conforme o secretário. Devido a essas questões, a data certa da conclusão ainda é incerta. A projeção é para o final de setembro, mas pode ocorrer em outurbro ou novembro, já que algumas estruturas ainda não foram iniciadas.

Além de escola, creche e
posto de saúde estão previstos

Também está em construção no complexo Rubi uma escola de ensino fundamental para 800 alunos, que terá 12 salas divididas em três blocos, além de um ginásio. O equipamento será vizinho de uma praça de esportes, com campo de futebol, em espaço público de acesso livre.
O município se comprometeu a construir, no local, uma creche para 120 crianças em atendimento integral, além de um Centro de Saúde da Família (CSF) para o atendimento de 6 mil famílias por mês. Os três equipamentos devem obedecer aos padrões definidos pelo governo federal.
As construções de responsabilidade da prefeitura ainda estão em projeto, sem data definida para serem viabilizados. Orçamento prévio indicava custo de R$ 2,4 milhões para a creche e R$ 881 mil para a CSF. (Daíza Lacerda)

Fundo deve garantir duplicação
de trecho da Lauro Corrêa

Apesar dos equipamentos previstos para absorver a demanda de educação e saúde no complexo, a mudança das famílias deve impactar principalmente o trânsito na região, que já é intenso devido à densidade populacional alta no entorno.
Principal via de acesso, a avenida Lauro Correa da Silva deve ter o trecho defronte ao Rubi duplicado, em obra que já está em fase de licitação, conforme o secretário Felipe Penedo. As obras devem ser custeadas com recursos do Fundo Municipal de Habitação, mas ainda não foi informado o orçamento projetado da obra.
A extensão duplicada deve ser entre o Rubi e início do São Lourenço e Morada das Acácias, onde há divisão de ruas e faixas. Já existem projeções para que o miolo se transforme num terminal urbano, centralizando o tráfego principalmente na pista sentido Rubi e avenida do Morada das Acácias. (Daíza Lacerda)

Trabalho social iniciará
organização dos condomínios

Questões envolvendo a mudança e política da boa vizinhança, assim como as regras com animais domésticos, estão entre os assuntos a serem abordados com os contemplados no trabalaho social que será iniciado em breve. Conforme Felipe Penedo, a Caixa contratou uma empresa para desenvolver o trabalho, que consistirá também em orientar as questões de condomínio, como a administração e taxas, além dos responsáveis de cada área. (Daíza Lacerda)

09/07/2016

Revolução de 32: Limeira e as notícias do front

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Reaberto, museu expõe parte de peças usadas por combatentes limeirenses

Daíza Lacerda

Que Limeira teve participação ativa na Revolução Constitucionalista de 1932 não é novidade. Mas, a partir deste ano, principalmente as novas gerações poderão ter contato com peças que resgatam a mobilização em torno do ideal constitucionalista, que levou centenas de limeirenses às trincheiras há 84 anos.
Apenas uma parte do considerável acervo da revolução está exposto, por se encaixar num contexto maior das temáticas das três salas abertas recentemente. Mas o material guardado pode ser consultado por pesquisadores, e não é descartada uma exposição maior futuramente, como informa Ana Terezinha Carneiro Naleto, gerente do Museu Histórico-Pedagógico Major José Levy Sobrinho.
O major, aliás, é um dos protagonistas do levante constitucionalista, responsável pelo recrutamento dos combatentes. Limeira teve dois batalhões, com cerca de 300 homens que eram identificados por flâmulas com o nome da cidade e uma laranja desenhada. As mulheres também tiveram participação ativa, como na confecção de uniformes, além dos cuidados médicos com o treinamento de enfermeiras e médicos da Santa Casa que acompanharam os combatentes.
Na segunda sala, que concentra itens que remetem à transformação urbana de Limeira, estão objetos como o uniforme de um combatente, um capacete, pinturas e reproduções de retratos, nem todos com informações da época ou do doador, como explica a museóloga Letícia França Lopes. Itens como talheres buscam remeter ao cotidiano dos combatentes. Visitantes notarão que eles usavam calças curtas. Isso se devia à longas botas, que quase chegavam ao joelho, sendo desnecessário que as calças fossem mais compridas.
A visitação é aberta de terça a sexta-feira, das 9h às 16h (às segundas fecha para limpeza e manutenção). Há planos de abertura aos sábados e horários estendidos à noite, ainda sem data definida. O museu fica na praça Coronel Flamínio Ferreira de Camatrgo, no Centro.
MORTOS EM COMBATE
Dois combatentes de Limeira morreram em batalha: o sargento Alberto Pierroti e Adolfo Nenholdi. O primeiro, cujo mausoléu no Cemitério Saudades recebe tradicionalmente os atos cívicos de 9 de julho, está retratado em pintura da época do alistamento. Há ainda a foto de seu funeral.
Outra personagem limeirense é Maria Soldado, como era conhecida Maria José Barroso, enfermeira que se alistou em São Paulo e acabou indo para o campo de batalha. O acervo tem itens relacionados a ela, como notícias de jornal, que não estão em exposição. Entre outros registros guardados estão certificados de alistamento.
Limeira perdeu o último combatente em março de 2012. Ulysses Rodrigues de Oliveira morreu aos 99 anos e, em sua última entrevista à Gazeta, no ano anterior, resumia o patriotismo dizendo que “o homem que luta pelo ideal não teme nada”.

O estopim da revolta

Limeira não tem nenhuma via chamada 23 de maio, mas tem a rua M.M.D.C., no Centro (próxima da rua Sargento Pierroti), que homenageia os estudantes mortos naquele dia, em 1932, em São Paulo.
Martins, Miragaia, Drausio e Camargo morreram durante repressão logo após Getúlio Vargas nomear interventores nos Estados, desagradando os poderes não só de São Paulo, como de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A cultura do café predominava em Limeira, e era de interesse dos agricultores em todo o Estado a busca pela reforma da Constituição, para romper com as antigas oligarquias.
O levante estourou em 9 de julho. Os paulistas persistiram mesmo perdendo apoio dos outros Estados. Apesar de toda a mobilização, os combatentes tinham condições e armamentos precários, sem conseguir resistir às tropas do governo. Mesmo com a derrota em campo, a reivindicação paulista começaria a tomar forma em meados de 1933, com assembleias constituintes e a votação de deputados em novembro daquele ano. A vigência da nova Constituição foi a partir de 1934, prevendo direitos como eleições livres, voto secreto e com participação feminina. O dia 9 de julho é feriado no Estado de São Paulo desde 1997. (Daíza Lacerda)

Uma viagem às trincheiras

Não é preciso ir longe para fazer uma viagem na história, e se tornar espectador da revolução, pelo relato de um limeirense. A porta de entrada para o passado é a Biblioteca Municipal, onde estão disponíveis diversos volumes do “Diário de Campanha de um Ex-Combatente”, um testemunho de Orlando Forster, bancário à época e que se voluntariou não só nas trincheiras, mas no registro histórico do cotidiano dos combatentes. Nascido em 1905 e morto em 1988, Forster data o diário em 1982, na ocasião das celebrações dos 50 anos da revolução.
A saga é narrada desde o início, na edição editada em 1998 pela Sociedade Pró Memória de Limeira. “Na madrugada de 10 de julho de 32, o jovem Manoel Simão de Barros Levy, após dirigir carta de despedida  a seus pais, seguiu para São Paulo a fim de incorporar-se às Forças do Exército Constitucionalista. Esse gesto foi imitado por grande número de jovens da nossa terra, que acorreram aos postos de alistamento na Capital, e destes para os diversos batalhões em formação; de forma que Limeira ‘se fez presente’ em todos os setores de combate”.
Além de Manoel, outro filho do major Levy seguiu para o front. Forster, que foi 1º tenente, cita a liderança do major Levy na organização do posto de alistamento, com comissões definidas em reunião no Limeira Clube. Além do major como presidente, a comissão de alistamento tinha entre os membros Lauro Correa da Silva, então prefeito. A comissão para angariar donativos era presidida por Maria Thereza Silveira de Barros Camargo, que também ajudou a equipar a Santa Casa e a desenvolver cursos para enfermeiros. Havia ainda os grupos de sindicância, assistência aos voluntários e de fardamento. A equipe médica que acompanhou os combatentes era chefiada por Waldemar Mercadante. O “quartel general” das comissões foi o Grupo Escolar Coronel Flamínio, que atualmente sedia o museu, e posteriormente seria entregue “em perfeito estado de conservação” para retomada das atividades escolares.
A fama correu entre o alistamento e treinos com fuzil. “Nossos rapazes tornaram-se muito conhecidos na cidade e eram identificados pela flâmula que ostentavam no peito, a qual trazia o nome de Limeira encimado por uma laranja. Era uma tropa que se apresentava bem uniformizada, e, quando desfilava pelas ruas da cidade, marchava garbosamente, sob aplausos dos transeuntes. Certa vez, quando desfilávamos em direção da Estação da Paulista, subindo pela Rua 13 de Maio, ouvi uma menina que se achava na janela, gritar: ‘Corra, Cidinha, venha ver o batalhão dos laranjinhas'”.
A primeira prova foi em Eleutério, onde, em 3 de agosto, “o inimigo iniciou o ataque, empregando armas automáticas que possuíam em grande cópia. A princípio, o ataque partia de um único ponto, mas ao cair da tarde, todas as nossas trincheiras estavam sendo visadas pelo fogo inimigo”.
Ele narra diversas batalhas até o desfecho da revolução, com a perda de dois homens dos batalhões limeirenses, não sem registrar a solidariedade entre os irmãos de farda. “Aborrecido e sentindo um frio terrível, sentei-me entre duas pedras grandes e ali, encolhido, adormeci. Fui despertado por um ruído e, abrindo os olhos, dei com um vulto que se debruçava, cautelosamente, sobre mim. Instintivamente levei a mão no cabo da faca que trazia na perneira e perguntei: – ‘Quem é?’ – ‘É o Beija-Flor, tenente, vim emprestar-lhe o meu cobertor, pois o senhor está gemendo de frio’. E cobriu-me até a cabeça. A recordação deste fato e de tantos outros coincidiam com o término da nossa campanha. Trazíamos em nossas almas as cicatrizes dos sofrimentos e perigos enfrentados na jornada que terminava, nos sentíamos compensados por não termos sido atingidos pela fatalidade”. (Daíza Lacerda)

04/07/2016

Ao mestre, com carinho

Filed under: Uncategorized — daizalacerda @ 8:30
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O artigo desta semana é sobre o professor Fumaça, e a nova fase que testemunha daquela que foi a sua casa por quase 50 anos, a pista do Tiro de Guerra. Neste texto peço licença para misturar a jornalista e corredora amadora, dividindo um fragmento do filme que passou na minha cabeça ao fazer parte daquele espaço e ter acompanhado tão de perto a transformação pela qual passou. No mais, fica a minha admiração ao professor e o agradecimento por mais uma lição: o amor incondicional ao que se tem como missão de vida, ainda que isso exija o desapego.

 

COLUNA RELEITURA – 04/07/2016

Ao mestre, com carinho

Daíza Lacerda

Foi ao ver a foto postada na rede social que me mei dei conta da relação de causa e efeito entre o exercício da profissão e o gosto pessoal pela corrida que me tomou há alguns anos. No álbum da inauguração do piscinão na fan page da ALA, o atleta Hiei Germano registrou minha entrevista com um Fumaça emocionado ao voltar ao local no qual se dedicou por quase meio século ao atletismo.
Lembrei que era uma sedentária quando entrevistei o Fumaça pela primeira vez. À época, a pauta era uma das edições da corrida Ainda. A matéria teve também depoimentos de deficientes que arrasavam (e ainda arrasam) nas pistas, o que me deixava mais envergonhada de não ter coragem de me mexer. Isso mudaria tempo depois, quando pisei pela primeira vez na pista do Tiro de Guerra, com um par de tênis velho e um par de canelas muito finas e fracas.
Ainda não fazia ideia da vasta formação que a pista havia proporcionado. Histórias de gente que passou a juventude ou infância trotando ou acelerando ali pipocaram quando a pista seria fechada para obras do piscinão. As máquinas escavadeiras chegaram antes do esperado, e foi de cortar o coração ver o professor deixar aquele que era o seu lar. Na verdade, era como um lar a todos que habitavam, inclusive eu que, à epoca, mal havia aderido à equipe. Tudo tinha significado, desde o pomar nos quais as galinhas descansavam à escadaria, gramado, e falhas na pista que todos conheciam de cor. Era impossível não se sentir em casa com tanta hospitalidade.
Fiquei surpresa ao constatar o quanto Fumaça havia acostumado ao “novo lar”, na área ao lado da Câmara Municipal – que também foi um parto para ser viabilizada. Era um desapego que não esperava dele, mas que se mostrou tão importante quanto se apropriar dos locais públicos de forma sadia.
A pista disponível hoje não é mais a mesma, e precisará de adequações. Assim como a área do Piratininga, que foi totalmente transformada pela ALA à época, quando se encontrava fechada e abandonada. Se o piscinão promete iniciar um novo capítulo na drenagem, talvez a transformação que está por vir na então tradicional pista também seja uma oportunidade para renovar e alavancar o atletismo em Limeira.
O professor estava indeciso. Disse que ficaria na pista a qual fosse designado, sem sinais de querer se aposentar. Quem já presenciou seus treinos morro acima na tutela de jovens pangarés como eu e muitos outros, sabe que não largará o osso até que lhe faltem forças. Problemas de saúde o tiraram das competições por um tempo. Paciente, esperou e voltou nos Jogos Regionais do Idoso (Jori) deste ano, garantindo medalha.
A saga do piscinão, nos dois anos entre a primeira escavada e a inauguração, pode até ter parecido um dia como uma eternidade, mas imagino como deve ter sido presenciar, de fato, o pulo de gerações à maneira que Fumaça testemunhou. O tempo entre a construção e reconstrução teria passado na velocidade de um tiro dos 300 metros que a pista tinha? O peso, velocidade e valor dos anos está além do que a nossa geração pode mensurar. Mas, como um patrimônio vivo, Fumaça sobrevive ao tempo de olhar para o novo, com a sabedoria do veterano.

02/07/2016

Piscinão é concluído após 23 meses de obras

Filed under: Uncategorized — daizalacerda @ 23:12
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Conclusão foi antes do prazo previsto, com reservatório colocado à prova três vezes

Daíza Lacerda

Lojistas da baixada do Centro e motoristas que transitam na Vila São João e Piratininga já podem ficar aliviados: a construção do piscinão sob a pista de atletismo ao lado do Tiro de Guerra está concluída, e foi entregue ontem, em solenidade.
Autoridades e representantes de moradores e comerciantes participaram da inauguração, reconhecendo os percalços e também os benefícios da obra, que prevê não só evitar enchentes na região do Mercado Modelo, mas também acabar com enxurradas em vias como a avenida Piracicaba. A construção reteve águas da chuva em três ocasiões, sendo a última no mês passado.
A pista de atletismo também foi entregue, mas passará por adequações. Osmar da Silva Júnior, do SAAE, informou que regras precisavam ser atendidas, o que não permitiu melhorias como a colocação de um piso emborrachado. O uso do local ainda está em definição, já que o outro espaço, no Jardim Piratininga, ao lado da Câmara Municipal, permanecerá aberto.
O secretário de Esportes, José Luiz Rodrigues, explicou que os dois locais serão mantidos e atenderão a diferentes públicos. A pista do Tiro de Guerra, mais técnica, deve atrair os atletas que buscam desempenho, enquanto a do Piratininga, arborizada, receberá adeptos de atividades ocasionais, além de crianças.
José Luís Risso, presidente da Associação Limeirense de Atletismo (ALA), que cuidava do local antes da obra, informou que a preferência dos atletas é pela pista do Piratininga, que passará por melhorias. De qualquer forma, a do Tiro de Guerra precisará de adequação do piso, além de ajustes em estruturas como a do banheiro, e preparação para outras modalidades além da corrida. A situação da ocupação será definida a partir da próxima semana entre a secretaria e a entidade.
BENEFÍCIOS
O prefeito Paulo Hadich salientou a importância da manutenção, mais do que da obra, já que sem a limpeza o reservatório perde o seu poder de contenção. Agradeceu à população, mesmo aos moradores críticos, e salientou que a empresa permanece mais três meses no município para eventualidades, além da garantia de cinco anos da obra.
O deputado federal Miguel Lombardi, que atuou junto ao Ministério das Cidades para garantir liberações que atrasaram, abordou a somatória de forças para que o projeto fosse realizado. “Podemos medir o tamanho do transtorno, mas também do benefício. A água não vai mais levar mercadorias do dia para a noite”.
Engenheiro da DP Barros, empresa que executou a obra, Oswaldo Bergamaschi salientou que não houve mudanças no projeto, e que um novo canteiro de obras será feito em terreno cedido pela prefeitura, já que a sede da empresa é fora. Informa que há mais locais no município que comportem piscinões, reconhecendo, assim como outras autoridades, o desafio da drenagem nas cidades. “O transtorno é passageiro, mas o efeito é para sempre, cada obra é como um filho”.

 

Fumaça e o novo antigo “lar”

José Carlos da Silva, o Fumaça, volta à pista na qual passou 48 anos, mais da metade de sua vida, da época em que se tornou atleta até a formação de novas gerações dedicadas ao esporte.
Apesar de dois anos longe do local em que passava mais tempo do que na própria casa, as lembranças são vívidas do homem que viu a pista nascer, testemunhando a inauguração da Praça de Esportes Francisco José Soares em 15 de julho de 1967. “Foram muitas crianças, adultos, além do pessoal do Tiro de Guerra. Já vi muito atirador caindo em exames”, conta.
O professor está dividido. Apesar da dificuldade de sair de sua “casa”, acostumou-se com a nova, ao lado da Câmara Municipal, em espaço resgatado para a continuidade das atividades da Associação Limeirense de Atletismo (ALA). “Não foi fácil conseguir um novo local. Era um pasto, organizamos tudo e continuamos cuidando”.
Ele pondera que a pista recém-entregue tem prós e contras. Se é de fácil acesso, próxima da região central, e favorece quem busca treinar o desempenho, também está sujeita à poluição do intenso tráfego no entorno. No Piratininga, o ponto forte é a arborização, ainda que o traçado não seja oficial para treinos de desempenho.
Ele aguarda a definição de onde ficará alocado, e garante que ficará bem em qualquer um dos locais. Só lamenta as árvores frutíferas retiradas na obra para dar espaço à rampa de acesso do reservatório. Se voltar, as plantará de novo, já que serviam de refúgio das galinhas de estimação que compunham o ambiente. Atualmente, cria duas delas na pista do Piratininga, batizadas de Hortência e Paula. “Se eu voltar, trarei elas comigo!”. (Daíza Lacerda)

 

Piscinão em números

Com diversos atrasos durante a construção, o orçamento da obra foi na ordem de R$ 25 milhões, sendo que até ontem foram repassados R$ 18.559.637,06, faltando R$ 6.499.443,1. Deste valor, R$ 505.865,29 são referentes ao projeto técnico social, faltando para obra R$ 5.993.577,81.
Para a construção do reservatório, foram retirados 67.597,00 m³ de terra, o equivalente a 4.570 viagens de caminhão trucado. A terra retirada das valas nas ruas totalizou 111.270,40 m³ (7.500 viagens). A destinação e deposição de materiais inertes totalizou 110.495,95 m³ (7.450 viagens).
O piscinão demandou, ainda, 3.025 m³ de concreto, 191.937 kg de ferro, 7.120 m² de grama esmeralda, 510,05 metros de aduelas de concreto e 7.756,40 metros de tubos de concreto de 400 mm a 1.500 mm de diâmetro.
A capacidade é de 10 milhões de litros, numa área de 4 mil m², em captação ao longo de 8,4 km de rede de drenagem. Na parte mais funda, terá 5,65 metros e, na mais rasa, 4,65 metros.
Para execução do projeto, cerca de 100 operários/mês trabalharam no canteiro de obras.
A rede de galerias foi implantada em 25 ruas dos bairros Piratininga, vilas Balduíno, Paraíso, Mathias, Tank, Leitão, São João e Maria Helena. A pista de atletismo passou de 7 metros para 10,5 metros de largura. A iluminação foi reformulada com lâmpadas de led, mais econômicas. (Daíza Lacerda)

Original em pdf aqui.

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